Quando Nietzsche Chorou
Recomendo o livro “Quando Nietzsche Chorou”, de Irvin Yalom, da Ediouro. Que idéia genial do autor! Colocar o filósofo Friedrich Nietzsche fazendo terapia com o famoso médico vienense Joseph Breuer!
A Psicanálise, realmente, teve dois pais: Breuer e Freud. Breuer era bem mais velho que Sigmund. Ambos judeus, eram bons amigos, viviam conversando. Freud não saía de sua casa. O autor retrata bem como estava o anti-semitismo no final do século XIX, é um bom retrato daquele período, o que comiam em Viena, como se vestiam, como estava a Medicina, que remédios eram receitados.
Um dia, os dois amigos acabaram se separando. Breuer não reconheceu a etiologia sexual das neuroses. Depois dessa cisão, o médico vienense acabou se voltando para a clínica geral. Foi um médico reconhecido, tratou muita gente importante de Viena. Recomendo ao leitor que leia antes o posfácio feito pelo autor.
O livro trata também da paixão de Breuer pela sua cliente Ana O. (cujo verdadeiro nome era Bertha Pappenheim).
A intelectual e futura psicanalista Lou Salomé é uma das personagens, ela pede ao médico vienense que trate da depressão suicida de seu amigo Nietzsche. Este era apaixonado por Lou Salomé.
O famoso filósofo alemão sofria de enxaqueca e uma série de outras complicações, já havia tentado tratamento com vinte e quatro médicos de toda Europa. Breuer acaba atendendo-o e vai encontrar em sua filosofia respostas para suas próprias dores existenciais.
Breuer e Nietzsche! Dois homens atormentados! O encontro destes dois personagens extraordinários vai resultar numa profunda amizade e, diria que este é o tema central do romance. Eis outras temáticas que aparecem: preocupação com a morte, liberdade, fidelidade, casamento, medo, culpa (os judeus têm muito isso!), solidão, mágoa, religiosidade, Deus, prazer, dor, amor, carreira, fama, temas humanos, demasiado humanos.
Ficou uma bonita mistura de personagens fictícios com personagens históricas.
“Quando Nietzsche Chorou” daria um bom filme! Por enquanto, já é uma peça teatral, que tem Cassio Scapin (que fazia o Castelo Ra-Tim-Bum) como protagonista.
Escrito por Fabiano Possebon às 20h43
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Darwin procurando "Darwinistas" (ou "O macaco que "pagava mico")
O macaco velho Simão Darwin se julgava um sábio, era arrogante, gostava de ficar passando lição de moral e testando todos os animais sobre diferentes assuntos, por isso vivia sozinho, todo mundo se afastava dele.
Encontrou, certo dia, um símio deitado em uma árvore, o acordou e perguntou-lhe:
- Você sabe qual a origem da frase: “Macaco velho não mete a mão em cumbuca? Eu sei”.
O mono xingou-o tanto, “saiu com ele nas costas”.
Quando chegou em sua árvore, estava pichado no tronco: “Cada macaco em seu galho, o problema é que há muito macaco e pouco galho”. Riu a bandeiras despregadas, em seguida, ficou pensativo: “Quem será que escreveu isso? A frase até que é profunda, mas não existe macaco inteligente, eu sou o único, a minha missão é guiar esses meus irmãos ignorantes. Fui imbuído dessa maldita missão. Será que fui eu mesmo que escrevi isto sonambulicante?! Só pode ser!”
Escreveu e-mails para toda a macacada, convidando-a para uma reunião, queria escrever um livro e dizia necessitar de ajuda. Na verdade, desejava fazer uma lavagem cerebral, esnobar os seus irmãos. Desejava escrever uma obra defendendo a tese de que os símios são uma evolução do homem.
Ninguém compareceu. Simão Darwin mandou um e-mail malcriado para todos, dizendo o seguinte: “Uma banana para vocês! Continuem ignorantes. A preocupação de vocês é se haveria comida para todos aqui. Pois sabiam que, se fosse preciso eu faria o milagre da multiplicação das bananas”.
Certa feita, acordou um velho leão para perguntar-lhe o seguinte: “ Meu amigo, você sabe por que no Circo Cheiroso o Leão Paxá só come banana e outras frutinhas?” Ele ficou furioso: “Me acordar de um sono profundo para perguntar asneiras! Eu devia chamar a minha esposa para dar um pega em você”. Darwin respondeu: “Porque o Circo Cheiroso é pobre e o Leão Paxá está registrado como macaco”.
Outras perguntinhas onde ele gostava de testar todos os animais: “Quem é o autor da frase: “Nem só de banana vive o símio”? “Macaco velho tem medo de água fria”, “mais vale uma banana na pata que...”, “se a vida lhe der uma banana, faça dela uma bananada”, etc, etc.
Toda macacada, aliás, toda bicharada fugia dele fazendo careta. Para os filhotes contava sempre as mesmas histórias, que dizia serem criações suas, chamadas “No Reino da Macacolândia” e “Na Era dos Macacóides”.
Gostava de ficar pulando de galho em galho como todo bom mico, mas com uma diferença, sempre utilizando um cipó, guinchando, fazendo pose feito um Tarzan para poder se exibir, mostrar sua agilidade.
Certo dia, escorregou, foi parar no chão, logo começou a berrar: “Quem foi o cretino que passou vaselina no meu cipó?! Se eu pegar eu mato”.
Estava ali por perto um burro. Darwin celeremente passou a mão numa vara, riscou no chão um pequenino círculo e em volta deste um grande, em seguida falou para o jegue: “Ô meu irmão burraldo, você é mesmo um estúpido que não consegue aprender nada, saiba que esta bolinha significa tudo o que vocês burros sabem e o grande é o que eu, o velho sábio Simão Darwin, um superior, sei”.
O burrico pegou a vara e desenhou um círculo bem maior em torno dos dois e zurrou: “Meu amigo, meu pobre amigo, este bem grande significa o que nem o burro, nem a bicharada toda, a macacada e nem os humanos sabem” e saiu dando pinotes, gargalhando feito uma hiena.
O símio velho Simão Darwin ficou pensativo, em seguida coçou a cabeça, balançou-a de um lado para o outro sem parar, começou a pular feito um doido, guinchando: “Não é que a resposta dele foi super inteligente! Mas, o que é isso?! Então, existem burros inteligentes? Será que fui eu que ensinei tudo isso pra ele sonambulicamente?! Só pode ser... Não, não... A verdade é uma só, eu tenho que aceitá-la. Preciso ser mais humilde...”
Escrito por Fabiano Possebon às 20h29
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Tango solo (autobiografia de Anthony Quinn)
Recomendo “TANGO SOLO”, uma autobiografia de Anthony Quinn, da Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro. Nele, Quinn conta toda sua vida, seus filmes, amores, temores, viagens, amizades, curiosidades de Hollywood e também do cinema europeu. Eis um trecho do livro: “(...) Fantasmas me assombram. Aqui nesse passeio (um passeio de bicicleta) me assusto diante da mais leve aparição, ante qualquer visão ou som que surge fora de lugar. Se não é o menino (voz de um menino que ele ouvia), para me atormentar com a agonia da retaliação, é alguma outra coisa. Um passarinho voando muito perto da minha cabeça. Uma pedra atirada pela roda da bicicleta para a beira da estrada. Uma sombra esquisita pelo canto do olho. Cada som, cada movimento, tem alguma coisa a me dizer. (...) Uma vez, nas montanhas da Provence, recebi a visita de uma voz que levei algum tempo para reconhecer. Era verão de 1955 e eu estava fazendo papel de Paul Gauguin num filme chamado “Lust for Life” (Sede de Viver), dirigido por Vincente Minnelli para a MGM. (...) Como pintor, eu poderia me sair bem sem isso e até Kirk (Douglas, que fez papel de Van Gogh no filme) andava praticando a técnica, mas era assim que eles queriam. Kirk devia pintar uma ponte e eu uma cerca com uma mulher ao lado. A idéia era mostrar o contraste dos estilos e a relação dos dois através da pintura. Quando do diretor aprovou o ensaio, decidiu rodar a cena.
Nesse momento ouvi de novo a voz:
- Você está segurando errado o pincel.
A princípio pensei que fosse Vincente dando uma instrução, ou talvez Kirk, com alguma idéia para o meu personagem.
- Vocês disseram alguma coisa? – perguntei, levantando os olhos da tela.
Deram de ombros. (...) Mais tarde, falando com Minelli: “ Gauguin está aqui. Está falando comigo. Está dizendo que não estou segurando certo o pincel.
Minelli acenou com a cabeça, parecendo considerar o que ouviu.
Então olhou para mim e começou a rir. Uma risada alegre, contagiante. Aquilo que era para mim tão estranho e perturbador, para ele era motivo de comemoração. Oh, um fantasma?! Que maravilha! Maravilha! Continuou rindo, mais alto e os outros começaram a rir também.
- Tony recebeu uma visita do sr. Gauguin! – Minnelli anunciou, rindo ainda. Voltou-se e me deu um tapa nas costas. – Onde ele está, Tony? Onde está seu amigo? Me apresenta!
(...) Eu pensei que tinha ficado maluco de todo, mas Minelli aceitou, e Gauguin ficou comigo o tempo todo, até o fim do filme. Ganhou para mim o segundo Oscar. De vez em quando ainda o ouço”.
Escrito por Fabiano Possebon às 20h26
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Areado, lugar encantado (uma crônica)
Apoximava-se o dia da nossa viagem – 5 de maio de 2006 - para comemorarmos o aniversário de casamento. O lugar escolhido foi a Pousada de Areado.
Ficamos encantados com os lugares lindos, com a comida tão saborosa... Tanta comida!
No primeiro dia, ficamos de tardezinha no píer, a Sandra me falou: “Fabiano, feche os olhos, não pense em nada, tente ouvir todos os barulhos, os sons da natureza”. Ouvi o som da água, pássaros que cantavam enquanto voavam.
À tarde, enquanto ela dormia, eu ia até a nossa pequena varanda e devorava o “Mentiras no Divã”. Não queria mais parar de ler. Prendeu-me tanto a atenção, ficava curioso para saber tudo o que ia acontecer. Quanta informação! Quantos acontecimentos! Aprendi tanta coisa nova! Esse Irvin Yalom é demais!
Havíamos feito um trato: não falar em problemas, não fazer reflexões filosóficas. Cumprimos em parte, isto é inevitável. Na, verdade, é impossível... Somos feitos de lembranças, não dá para esquecer tudo.
Que delícia poder compartilhar tudo com a Sandra, ouvir seus comentários, ouvir sua vozinha, ver seu sorriso (que bom que tenho olhos para ver). Ver os cafezais, o rio... Poder também agora fechar os olhos e relembrar tudo.
Nossas músicas, nossos livros, tudo era nosso, nosso cantinho, tudo estava a nosso favor – o tempo, o sol, o tempo bonito ajudava, o sol sorria para nós.
Queria ser um poeta para poder descrever tudo aquilo.
O banho gostoso, a pescaria que não fizemos, o passeio de charrete que também não fizemos, mas houve outros passeios também aprazíveis, comida farta e saborosa, o amor, a visão do seu sorriso, as boas gargalhadas... Podemos eternizar tudo isso.
Quando vejo uma situação semelhante, logo penso: Então, Areado é aqui também? É aqui, acolá... Onde estivermos e sentirmos aquela paz infinita, aquele mesmo amor.
Areado, para nós, é sinônimo de tranqüilidade, calma, paz, amor.
Areado! Em todo lugar que estivemos: Sandra e suas gracinhas, suas observações inteligentes, filosofices, seu carinho... seu olhar brilhante... 2006 foi um ano inesquecível por tudo isso...
Aqui nesta sala em Ribeirão Preto, na praça, em todo lugar que se assemelha àquele é Areado. Areado é aqui!
Areado está dentro de nós, está interiorizado. Areado, um lugar interiorizado e encantado. Rima com muita coisa boa...
Aquela paz é para ser lembrada sempre. Em momentos de depressão a recordação de tudo nos colocará para cima. A lembrança daquelas águas, árvores, aves, etc...
No último dia, no píer, novamente de olhos fechados, tentando ouvir os sons da natureza... Mas, se Deus quiser, um dia voltaremos lá. Será muito bom rever tudo aquilo. Então, naquela tarde voltei a ouvir os pássaros, o murmúrio das águas, os sons da natureza.
Onde está Areado? Está aqui, acolá, onde estiver o nosso amor. Areado: lugar encantado!
Escrito por Fabiano Possebon às 20h23
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Aconteceu no Velho São Paulo - Prisões
O livro ACONTECEU NO VELHO SÃO PAULO, de Raimundo de Meneses, da Edição Saraiva (edição esgotada, o livro é de 1954), é cheio de curiosidades, fatos históricos, com muitas datas, bastante detalhes. É muito interessante um capítulo intitulado “Como eram as primeiras cadeias”.
Nele narra-se toda a dificuldade que houve para se abrir uma prisão em São Paulo. Por exemplo, em 1579, vinte e cinco anos depois da fundação da vila de São Paulo de Piratininga – ainda não existia uma casa que servisse de prisão para os criminosos.
Naquele ano, o Senado da Câmara (?), querendo reunir-se, não o pôde por falta de um lugar, teve que fazer sua sessão na residência de um determinado vereador, porque a casa do conselho que “era toda uma, estava ocupada com um preso”.
Palavras do autor: “A situação era tão embaraçosa que o juiz ordinário (?) Antonio Bicudo viu-se obrigado a reclamar dos seus companheiros de governança uma providência a respeito: “Não havia um carcereiro que tivesse cuidado da cadeia nem dos presos; nem na dita cadeia havia uma corrente, nem um girilam(?), nem um cadeado, com que se aferrolhassem os presos e as portas da dita cadeia”.
E diante de tanta miséria, lamentava-se assim: “que não podia fazer o seu ofício como era obrigado porque se prendessem uma pessoa, não tinha a quem entregar, e ferros que lhe botar, nem chaves para fechar as portas!”.
Um ouvidor de São Vicente assim despachou: “que a Câmara obrigasse um homem a servir de carcereiro, e Jorge Moreira a emprestar os pares de grilhões que em sua casa possuía. Com eles se poderá servir até que venha mais”. A pessoa, então, era obrigada a ser carcereiro? Um particular emprestava os grilhões?!
Os presos, então, viviam acorrentados!
Certo dia, aconteceu uma rebelião na Cadeia de São Paulo. Foi aberto um rigoroso inquérito para se apurar responsabilidades. Por fim, verificou-se que os presos haviam recebido de fora boa quantidade de armas e munições. O escrivão acrescentou escandalizado no relatório: “Sendo estas proibidas!”.
É o autor da obra quem fala: “(...) em o mês de setembro de 1786, era afinal inaugurada uma cadeia de pedra e cal, igual a de Santos”.
Parece tudo uma grande comédia! Este livro mostra quanta burocracia existia no Brasil, as enormes dificuldades para se resolver os problemas (problema grave como este dos presos). É uma obra bem pitoresca.
Escrito por Fabiano Possebon às 20h20
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Pai Patrão
Recomendo o livro “PAI PATRÃO”, de Gavino Ledda, da Berlendis & Vertecchia Editores. Trata-se de uma autobiografia. Podemos dizer Gavino é um verdadeiro herói, pois esta é a história de um vencedor. Nasceu ele em Siligo, na Sardenha, Itália, e permaneceu analfabeto até os vinte anos. E pensar que conseguiu depois se formar em Lingüística! Começa narrando sua vida quotidiana de menino pastor e também agricultor, a luta diária com o pai. PAI PATRÃO é a história de um marginalizado da cultura e da linguagem que quis, a todo custo, crescer, conquistar a palavra e o saber. Ele é um exemplo para todos nós.
A Sardenha é um lugar pobre, embora possua bonitas paisagens. Há muita criação de cabras e ovelhas. O principal problema de lá é o banditismo, não é tão bem organizado, mas é quase uma máfia. Os bandidos roubam ovelhas, gado, seqüestram pessoas. Ocorrem sempre vinganças pessoais e familiares. Isto faz com que a ilha viva sempre com medo, em clima de tensão. Porém, ao lado da pobreza, há muitos ricos que constroem belas mansões, “ressorts”, e isto tudo acaba atraindo os bandidos. A paisagem sarda, formada por montanhas desertas, bosque, oferece muitas possibilidades de fuga.
O pai, Abramo, espancava o menino Gavino, só pensava em dinheiro, no trabalho, em nada mais. Explorava, exigia demais. Espancava até os animais quando não o obedeciam. Alguns ele matava.
O livro é escrito de modo poético, descreve muito bem os costumes daquela região, as paisagens. Abramo quer mostrar sempre que Gavino, a esposa e também os outros filhos são propriedades suas até se tornarem proprietários também. É, posteriormente, no Exército, que o rapaz estuda italiano, até então só falava o dialeto sardo. Lá aprende também o latim e o grego. Sente-se atraído pelo estudo de línguas e acaba se tornando um especialista em Glotologia.
Gavino Ledda é um caso único, num meio tão limitado como o dele, depois de passar vários anos em trabalhos duros, de ter sofrido tanto, consegue estudar e ser alguém na vida. É um modelo a ser seguido.
É interessante o final do livro, o modo como Gavino enfrenta o pai, mostrando que jamais sentiria novamente medo dele. Caros leitores, desculpem-me, contei o final da história.
“Pai Patrão” já foi transformado em filme, tem direção dos Irmãos Taviani e foi vencedor do Festival de Cannes.
Escrito por Fabiano Possebon às 20h18
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O Livro das Religiões
Recomendo O LIVRO DAS RELIGIÕES, da Companhia das Letras, do consagrado autor de “O Mundo de Sofia” – Jostein Gaarder, que o escreveu juntamente com outros dois escritores: Victor Hellern e Henry Notaker.
Em perspectiva comparada, este livro investiga todas as formas de religiosidade, expondo suas semelhanças e diferenças. Mostra a distinção entre o catolicismo católico, o cristianismo das igrejas ortodoxas orientais e o das muitas denominações protestantes. Apresenta os deuses africanos. Define e contextualiza o judaísmo, o islamismo, o espiritismo. Vê o espiritismo como religião, coisa que muitos autores não fazem, o colocam somente como filosofia. Aprendi muita coisa nova sobre as seitas afro. A parte em que falam sobre o Espiritismo está corretíssima.
Percorre os autores o continente asiático e ensinam o que é hinduísmo, budismo, taoísmo, confucionismo, xintoísmo.
Permitem que a gente se atualize bastante em matéria de pluralismo religioso e diversidade cultural. Na versão brasileira, ainda traz um apêndice sobre as religiões no Brasil, de autoria do cientista social Antonio Flavio Pierucci.
Cada uma, a seu modo, todas as religiões exaltam a compaixão e a fraternidade universal, a sinceridade e a honestidade, a humildade e a mansidão, valores incontestáveis que ninguém quer ver desaparecer. Então, por que há tanta guerra religiosa? Suicídios religiosos coletivos? Embates entre seitas e igrejas por todo lado...? A obra tenta responder a estes questionamentos.
A verdade é que o universo da religião foi sempre complexo, contraditório... Este livro é muito importante porque descreve as características e o espírito próprio de cada fé.
Contam que na Índia do século XVI, o imperador Akbar mandou construir uma “casa das culturas”. A idéia, original para a época, era que ali pudessem livremente se expressar os representantes de todas as confissões religiosas. Este HISTÓRIA DAS RELIGIÕES tem um propósito semelhante: abrir livremente um espaço para que nele possam falar todas as religiões. O bom é que há também o ponto de vista das pessoas sem religião – os ateus, os agnósticos, os materialistas, os racionalistas convictos, os marxistas, os humanistas radicais...
A obra apresenta uma singularidade: aborda as religiões no contexto maior das filosofias de vida.
Eis o título de alguns capítulos: Conhecimento religioso; Monoteísmo; Filosofias de vida não religiosas, novas religiões e novas perspectivas; Ética...
Assuntos, a meu ver, que são de interesse de todo mundo.
Escrito por Fabiano Possebon às 20h15
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O Prêmio
O romance O PRÊMIO, de Irving Wallace, do Clube do Livro, foi escrito no começo da década de sessenta. A estória gira em torno de personagens fictícios que ganharam o Nobel. Há, no livro, muitas informações e curiosidades.
Em primeiro lugar, quem foi Alfred Nobel, o homem que institui o prêmio? Foi um químico sueco (Estocolmo, 1833, San Remo, 1896). Em 1866, conseguiu tornar a nitroglicerina manejável ao inventar a dinamite. Através de testamento, estabeleceu cinco prêmios anuais em benefício de autores de obras literárias, científicas e filantrópicas do mundo, aos quais se acrescentou em 1969 um prêmio de Ciências Econômicas. Portanto, o Nobel é constituído de Física, Química, Fisiologia e Medicina, Economia, Literatura e paz. A premiação é entregue pela Academia Sueca de Ciências para Física, Química e Ciências Econômicas, para Medicina e Fisiologia através do Instituto Caroline, de Estocolmo, para Literatura, pela Academia de Estocolmo, para a Paz, por uma comissão de cinco membros eleitos pelo Parlamento norueguês.
Eis alguns fatos curiosos:
- Knut Hamsun, o autor norueguês de “Fome”, ao sair de seu país para receber o prêmio de literatura em 1920, se achava completamente embriagado no dia da cerimônia oficial. Puxou a barba de um dos mais ilustres membros da Academia da Suécia e arrancou a faixa do vestido de uma velhinha. Encontrava-se na miséria e o prêmio veio salvá-lo.
- Muitas vezes acontece que as crenças de um autor o prejudicam. Em 1934, o filósofo Benedetto Croce esteve quase para ganhar o prêmio. Nesse tempo, na Itália, Benito Mussolini e os camisas-negras estavam em pleno apogeu. Croce era antifascista e não fazia segredo de seu ódio a Mussolini. A eleição dele seria uma bofetada naquele ditador, e este bem o sabia. Não se sabe ao certo o que sucedeu. Houve quem dissesse que Mussolini entrou em contato com o embaixador da Suécia e que este se pôs em comunicação com a academia. Seja como for, Croce foi derrotado por causa de suas idéias e concedeu-se o prêmio a um seu compatriota relativamente inofensivo, Luigi Pirandello.
- Quem recebe o prêmio (uma medalha e diploma) das mãos do rei, deve, em seguida, caminhar sem dar as costas para o monarca. Certa vez, alguns premiados se esqueceram deste detalhe e deixaram os suecos bem magoados. Em outra ocasião, o prêmio foi entregue por uma rainha já idosa e que não enxergava bem, sempre acabava dando-o para o seu secretário ao lado e não para o galardoado.
- O casal Curie: Marie e Pierre recebeu o prêmio em 1903 (Física), partilhando-o com Becquerel, em virtude de suas investigações em conjunto sobre os fenômenos das radiações. O casal se encontrava tão esgotado pelo trabalho que não pôde assistir à cerimônia de entrega. Foi o embaixador da França que o representou. Passados oito anos, Marie Curie, já viúva, ganhou pela segunda vez a mesma recompensa, desta vez em Química. Foi ela a única pessoa agraciada duas vezes com o Nobel. Sua filha Irene era casada com um dos jovens assistentes de Marie, no Instituto do Radium, um rapaz pobre chamado Frédéric Joliot, formado na Universidade de Paris. Mais um casal de cientistas premiados: Irene e Frédéric. Ganharam o prêmio de Química em 1935.
- Certa vez, Hitler não concordou com a premiação de um alemão que ele não apreciava e proibiu a indicação de alemães para o Nobel. Instituiu ele os seus próprios prêmios. Em certa ocasião, queriam que ele ou Mussolini fosse indicado para o Nobel da Paz.
Estas são apenas algumas curiosidades pinçadas por mim, mas há muito mais.
Às vezes, me pegava pensando: por que será que Alfred Nobel instituiu apenas cinco recompensas? Por que não quis também premiar a botânica, psicologia, direito, zoologia, outros ramos da arte tais como a arquitetura, a música, pintura, etc. O livro de Wallace mostra o porquê: ele recompensou somente os assuntos que o interessavam diretamente, não apreciava ele música, pintura, botânica, por exemplo.
Escrito por Fabiano Possebon às 20h13
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Negritude e Genialidade
Recomendo a leitura de “NEGRITUDE E GENIALIDADE”, a obra mais recente de Hermínio Correa Miranda, da Editora Lachâtre. Ele conta a vida do cientista norte-americano George Washington Carver. Filho de escravos, aquele mirrado menino negro não era muito diferente de tantos outros que têm nascido mundo afora, exceto porque tinha um sonho, pelo qual doou sua vida: o de lutar pela sua gente. E pensar que contrariando todos os prognósticos, Carver se tornou um dos maiores cientistas do mundo!
Mas, quem é Hermínio Correa de Miranda, o autor? Nasceu ele no dia 5 de janeiro de 1920, em Volta Redonda, RJ. Formou-se em ciências contábeis e trabalhou na Companhia Siderúrgica Nacional até se aposentar. Seu trabalho o levou a viver cinco anos em Nova Iorque, onde aprimorou seu inglês e tornou-se exímio tradutor dessa língua. Seu primeiro livro, “Diálogo com as Sombras”, foi publicado em 1976. Depois vieram mais trinta títulos, eis o nome de alguns: “Cristianismo: A Mensagem Esquecida”, “As Marcas do Cristo”, “A Memória e o Tempo”, “Alquimia da Mente”, “Os Cátaros e a Heresia Católica”, “Diversidade dos Carismas”, “Forças Psíquicas do Egito”, “Eu Sou Camille Demoulins” (com Luciano dos Anjos) e “Guerrilheiros da Intolerância”. A maioria de seus livros se tornou best-seller e seus direitos autorais foram cedidos a instituições filantrópicas. Seu interesse pela questão da negritude se deve a um trabalho de longos anos junto à juventude em uma favela do Rio de Janeiro, no qual são aplicados os recursos provenientes dos direitos autorais de seus livros publicados pela Lachâtre. Podemos dizer que Hermínio é um respeitado pesquisador, escritor e tradutor.
Eis um trechinho do livro em tela : Em 1939, convidado para receber a medalha Roosevelt, em reconhecimento pelos serviços prestados à ciência, Carver foi apresentado com as seguintes palavras: “Tenho a honra de apresentar, não somente um homem, mas uma existência impregnada pela paixão de expandir e enriquecer a vida do gênero humano... um libertador de pessoas, tanto de brancos quanto de negros; ponte entre duas populações, pela qual as criaturas de boa vontade podem reensinar-se mutuamente e gozar juntamente as oportunidade e potencialidades de sua pátria comum... (...) o senhor abriu novas oportunidades àqueles americanos que acontece serem negros; porque o senhor demonstrou, mais uma vez, que não existia a barreira da cor para a capacidade humana, porque o senhor ajudou milhares de pessoas a adquirirem nova confiança”.
Escrito por Fabiano Possebon às 20h06
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Mentiras no Divã
MENTIRAS NO DIVÃ
Recomendo “MENTIRAS NO DIVÔ, da Ediouro, de Irvin Yalom, o consagrado autor de “Quando Nietzsche Chorou” e “A Cura de Schopenhauer”. Neste “Mentiras...”, o tema principal é também a psicoterapia. Trata-se da história de três analistas: Seymour Trotter, Ernest Lash e Marshal Streider. Um dos pacientes de Ernest – Justin – havia se separado de sua esposa, a Carol. Esta começa a acreditar piamente que o culpado é o psiquiatra de seu ex-marido, que ele havia induzido o Justin a se separar. Então, ela arma um plano de vingança: fazer uma terapia com o Dr. Ernest Lash, visando prejudicá-lo em sua profissão. Conseguirá o famoso psiquiatra, escritor e orador resistir aos assédios e encantos de Carol? Tudo isto acontece justamente no momento em que ele está tentando pôr em prática uma nova abordagem terapêutica.
Ernest participara, anteriormente, de uma comissão de ética que havia incriminado o Dr. Seymour Trotter, acusado de utilizar o sexo como parte da terapia. Um outro analista, Dr. Marshal Streider (supervisor de Ernest) sofre um golpe financeiro aplicado por um cliente e contrata uma advogada, que é nada mais nada menos que a Carol. Conseguirá o Dr. Streider recuperar o seu dinheiro?
Há outros personagens também na história. É uma trama muito bem entrelaçada, que prende a atenção do início ao fim. O pano de fundo é o mundo da psicoterapia, o universo das sociedades psicanalíticas, as jogatinas, a ambição, o poder e traição.
É um livro tão bom quanto os outros anteriores de Yalom e este também tornou-se um best seller.
Só acho que o autor deveria ter feito um posfácio para explicar certas partes do livro, pois ficamos na dúvida se certas afirmações feitas por um determinado personagem são verdadeiras ou não. Estão presentes na obra acusações sérias contra alguns pioneiros da Psicanálise. Afirma-se, por exemplo, que Ernest Jones (psicanalista e um dos biógrafos de Freud) abusava sexualmente de suas clientes, tendo sido processado algumas vezes, necessitando sempre mudar de cidade. A mesma acusação de abuso em relação a Sandor Ferenczi, um analista húngaro. Também se diz que, atualmente, são comuns acusações contra terapeutas por assédio sexual, por tentarem persuadir o cliente de que o sexo pode fazer parte do processo terapêutico. Diria que esta obra pode ser recomendada não somente para psicoterapeutas, mas para o público de modo geral.
Escrito por Fabiano Possebon às 20h01
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Kafka vai ao cinema
Recomendo “KAFKA VAI AO CINEMA”, de Hanns Zischler, da Jorge Zahar Editores. “Fui ao Cinema. Chorei. Diversão ilimitada”. Assim escreveu Franz Kakfa num de seus diários, fornecendo apenas um indício de sua mal conhecida paixão pelo cinema. Até agora os aficcionados de Kafka limitavam-se a especular sobre os filmes que o teriam comovido tão intensamente, sobre como eles teriam influenciado seus escritos. Com este livro, o ator e diretor de cinema alemão Hanns Zischler, apoiado em trabalho detetivesco, nos oferece a primeira interpretação da vida de Kafka como cinéfilo.
A obra é toda recheada de fotos de filmes, cartazes e de salas de exibição.
Uma coisa interessante que Zischler conta, no início do livro, é que bem antigamente os cinemas enviavam convites para as pessoas irem assistir aos filmes, com resumo dos mesmos.
Este livro oferece detalhes esclarecedores sobre Kafka como ser humano, um homem de seu tempo, e compõe uma visão do mundo culto europeu do início do século XX.
Eis algumas coisas que escreveram sobre esta obra: “O trabalho detetivesco de Zischler é impressionante... É sedutora a idéia de que o cinema constituía um lugar em que Kafka podia se abandonar à volúpia de solidão inconsciente, como também encantador é pensar que ele encontrava no cinema um bem merecido descanso de seus pesadelos imaginários”.
“Tomando como ponto de partida todas as referências ao cinema em cartas, diários e outros escritos não-ficcionais de Kafka, Zischler percorre cada sala de projeção que o escritor visitou... e analisa cada folheto e propaganda de todos os filmes a que Kafka assistiu. O livro é cheio de descobertas, inclusive de fotografias de cena, cartazes, jornais e salas de cinema, evocando de maneira mágica os primeiros tempos da nova arte e o mundo tal como Kafka o viu”.
O autor nasceu em 1947, em Nuremberge, e mora desde 1968 em Berlim, onde trabalha como ator e diretor de cinema e televisão. Tornou-se conhecido como ator, sobretudo, por sua atuação em filmes de Chabrol, Godard e Wim Wenders. Já publicou outros livros.
Diria que esta obra é particularmente interessante para estudiosos e aficcionados por cinema.
Escrito por Fabiano Possebon às 19h57
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